terça-feira, 22 de novembro de 2016

Peppa




              
              Era um dia igual a qualquer outro. A luz do sol penetrou por entre as brechas das copas das árvores e tocou docemente no focinho de Peppa. Inspirou profundamente, espreguiçou-se e ergueu-se sobre as suas patas nitidamente demasiado grandes para o seu corpo de cachorra. Inconsciente do que estava para vir, Peppa lambeu os bigodes pretos depois de comer a sua primeira refeição do dia. Natural da sua tenra idade, a cachorra de três meses partiu à aventura. Decidiu que hoje ia ser um dia diferente. Iria ousar um pouco mais além. A arfar de excitação, correu para a estrada onde ouvia uns sons estranhos que sempre a haviam intrigado. Movida pelo seu espírito intrépido, Peppa correu para o alcatrão e mirou, curiosa, o objeto grande e metálico que se aproximava dela a grande velocidade. Infelizmente, quando se apercebeu que poderia ser perigoso, que lhe poderia custar a vida, já era tarde de mais. A lateral de um carro embateu contra o seu focinho frágil, de tal forma que o corpo foi projetado para a berma da estrada. A perda de consciência, o sangue que se espalhava, a súbita dificuldade em respirar, a dor para além do suportável que a consumia… tudo lhe parecia surreal. Sem saber se voltaria a ver a luz do dia, assim se manteve, em agonia, num pesadelo vivo, completamente a sós, marchando gentilmente no limbo entre a vida e a morte.

               Patrícia estava a caminho do trabalho. O filho de dois anos ao lado, a cantarolar qualquer coisa de um desenho animado, a cadela a arfar feliz no porta-bagagens por passar mais um dia com a dona. Avizinhava-se um dia normal, aparentemente igual a qualquer outro. Subitamente, Patrícia olhou pelo vidro e viu, na berma da estrada, o corpo de uma cachorra inerte no alcatrão. Tal como todos os outros, continuou em frente. “Não tenho espaço no carro”, pensou para com os seus botões. “Provavelmente está morto, pobre animal”. Passou uma rotunda. “Podia voltar para trás… Mas depois chegava atrasada.” Continuou em frente. Foi ao chegar a outra rotunda mais adiante que um pensamento lhe atravessou a mente, alterando tudo aquilo que previra para aquele dia: “Vou fazer o que toda a gente faz e ignorar o que acabei de ver?” Aproveitou a rotunda para voltar atrás. Peppa apenas pode agradecer por ela assim o ter feito.

                - Tenho uma cachorra atropelada dentro do carro.
                Foram as primeiras palavras que Patrícia me disse, naquela manhã. Levámo-la imediatamente para o internamento. O sofrimento do animal era terrível, difícil de ver. Arfava numa poça de sangue, com a boca e o nariz desfeitos.
     - Encontrei-a na estrada, é uma cadelinha de rua. Alguém atropelou-a e deixou-a à sua sorte. Nem imaginas a quantidade de sangue que estava no chão…
    Sedámo-la para lhe conseguirmos fazer um exame físico sem acrescentar mais sofrimento. Porém, mesmo sedada, Peppa gritava de dor só de lhe tocarmos na mandíbula. Tinha duas fraturas na mandíbula, outra na maxila que atingia o palato e o nariz e luxação da segunda vértebra cervical. Conseguiria aquele animal alguma vez recuperar? Felizmente, naquele dia, estava agendada uma visita do médico ortopedista à clínica para operar outro animal que tínhamos internado.

  Estávamos os três dentro da sala do Raio-X. Eu, Patrícia e o ortopedista. Tentávamos decidir o que fazer. Ao encontrar as múltiplas fraturas ao longo da cabeça, percebemos rapidamente que o prognóstico era reservadíssimo. Mesmo com cirurgia podia não conseguir sobreviver. Tínhamos duas hipóteses em cima da mesa: ou se aliviava naquele momento o sofrimento com a eutanásia, ou então avançava-se para uma cirurgia complicada, de recuperação duvidosa, que tanto poderia salvá-la como levar a um pós-operatório tão doloroso que terminaria, inevitavelmente, na eutanásia. Tudo dependia da recuperação do organismo dela. Valeria a pena o sofrimento atroz a que a íamos submeter? Admito que estava muito cética.
   - O que achas? – perguntou Patrícia ao nosso colega ortopedista. – Conseguimos fazer alguma coisa por ela?
   - E se isto tudo acabar de qualquer forma na eutanásia? Vamos fazê-la sofrer desta maneira? – perguntei, com o coração apertado, enquanto ouvia o arfar magoado de Peppa.
   - Pois, sem tentar nunca saberemos, não é? – questionou Patrícia, sentindo uma esperança que eu não partilhava.
  - Vá, vamos! – exclamou o médico ortopedista após longos momentos de reflexão. – Vamos avançar com a cirurgia!

  As primeiras 48 horas foram as mais complicadas. Medicada com metadona a cada 8 horas, anti-inflamatórios e forte antibioterapia, Peppa mantinha-se num estado de semi-consciência. Porém, aparentemente, parecia querer recuperar. Havia tantas complicações possíveis… Desde pneumonia por aspiração (devido a todo o sangue que inspirara), a hemorragias internas, hipoglicémia, hipotermia… A recuperação das fraturas era cerca de 50% das nossas preocupações. Porventura, Peppa parecia querer viver. Perdeu peso, mas começou a reagir. Inicialmente roncava a cada inspiração. Carinhosamente, Sónia disse que parecia uma porquinha. A porquinha Peppa.
Quando chegou o fim-de-semana, começou a ser óbvio que o organismo dela estava a recuperar a uma velocidade que eu nunca conseguiria prever. Só faltava ser capaz de comer e beber água sozinha. Passei o fim de semana a garantir que se mantinha hidratada, alimentada, medicada e com todos os mimos que lhe conseguisse dar. Aquele olhar meigo derretia-me o coração. Sempre que se punha de pé, andava e gania para o ar, certamente a chamar os irmãos, ou a mãe que não queria ter perdido. Nesses momentos abraçava-a e sussurrava-lhe que estava tudo bem, que tudo ia acabar bem. Mas a verdade é que não o sabia.
Na segunda feira, para nosso grande espanto, começou a comer sozinha. A felicidade que preencheu os corações de todo o pessoal da clínica era indescritível. Peppa iria ficar bem. Peppa iria conseguir ter uma vida normal. Depois de apenas 6 dias internada, Peppa recuperou ao ponto de sabermos que iria ser novamente uma cachorra saudável. Mal podíamos acreditar!

Mas só vamos conseguir dar um final feliz a esta história quando arranjarmos um dono, uma família que a acolha e a ame tanto como nós a amamos. E é precisamente por isso que partilho tudo isto. Está na hora de escrever o último capítulo. E depende do bom coração e da amabilidade de todos que este final seja feliz. Conto com a bondade humana para manter um arfar alegre em Peppa para o resto da sua vida!

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