domingo, 16 de outubro de 2016

O momento da eutanásia





Nunca é fácil passar por uma eutanásia. É sempre uma situação extremamente emocional, que envolve o sofrimento de todos. Principalmente porque se trata de um ato com consequências definitivas, sem retorno. É uma decisão irreversível. É a morte de um animal. Por essa razão é necessário avaliar caso a caso e quanto maior acompanhamento médico houver, mais fácil será para nós, médicos veterinários, saber quando é o momento certo para a colocar em cima da mesa como uma possibilidade. É o final da linha. E deve ser feita de consciência tranquila.
         Na minha prática corrente, a eutanásia existe para aliviar a dor de um ser vivo, de um amigo de quatro patas, quando sabemos que não há hipótese de ultrapassar esse sofrimento. Doenças terminais, danos sem resolução possível. A meu ver, é uma maneira de lhes dar uma morte tranquila e, principalmente, digna. Muitas vezes é difícil ter a certeza do momento certo. Noutras alturas, podemos ser pressionados a avançar com este procedimento quando, na verdade, ainda existe uma alternativa. “Custa-me vê-lo a sofrer…” Pois bem, a quem não custa? Na base diária, somos deparados com o 8 e o 80. Acho que se pode correr o risco de tomar numa decisão precoce e precipitada quando não temos um diagnóstico, quando não sabemos se o tratamento vai resultar ou quando, simplesmente, tem que envolver uma cirurgia dispendiosa e os meios económicos são escassos. No entanto, por vezes, não eutanasiar na altura certa porque não se é capaz de tomar essa decisão, pode ser ainda mais doloroso. É uma decisão que exige uma série de perguntas antes de ser tomada: Há recuperação possível? Não havendo cura, consigo estabilizá-lo e dar-lhe mais tempo de vida com qualidade e bem estar? Nesta última pergunta, na minha opinião, a partir do momento em que a resposta é positiva, a questão de quanto mais tempo ele se manterá estável, não importa. Mesmo que só lhe consiga dar bem estar durante mais um mês, penso que vale a pena seguir com tratamento. Temos que ter em conta que eles vivem menos tempo que nós. Se um mês na nossa vida é importante, imaginem na deles que têm uma esperança média de vida de 14-15 anos. Nestas situações pergunto-me várias vezes: Se me dissessem que daqui a um mês iria morrer, preferia viver este mês ou morrer já? É importante colocarmo-nos no lugar deles e tomar uma decisão dessa forma.
         Nesta linha de pensamento, torna-se óbvio que a eutanásia cai num limbo moral, onde as opiniões diferem de pessoa para pessoa, de veterinário para veterinário, onde não é fácil definir o que é certo e o que é errado, principalmente porque o animal não nos consegue dizer por palavras o que é que prefere. No entanto, podemos estar todos de acordo que o melhor é agir tendo em conta o benefício que podemos trazer para o animal. Quando se trata da vida do nosso amigo felpudo, é importante fazer um esforço para pensar primeiro nele e só depois em nós. Assumir um animal na nossa casa, no nosso quotidiano, é sempre uma enorme responsabilidade. É a vida de um ser que, por ter sido domesticado, não consegue sobreviver sozinho. Para além disso, é importante ter a consciência de que aquele cão ou gato não escolheu vir para nossa casa, ser dependente de nós. Nós impusemos nas suas vidas o nosso lar, a nossa rotina, o nosso amor. Por essa razão, somos responsáveis por eles. E é precisamente quando estão doentes e velhotes que precisam mais dos seus donos. Todos temos vidas complicadas. O tempo é escasso, para não falar do dinheiro. Mas eles não têm culpa disso. Não foram eles que escolheram, ao adoecer, ser o nosso problema. E é nestes momentos cruciais das suas vidas, que temos que assumir a responsabilidade, olhá-los nos olhos e pensar no que é melhor para o seu bem-estar.
          Deixá-los definhar sem cuidados para morrerem em sofrimento, não deve ser uma opção. Isso não é digno, e eles não o merecem. Para mim, a dignidade é tão importante na vida como na morte.
          Sinto que, enquanto médica veterinária, o meu papel é avaliar o estado clínico do animal, acompanhá-lo e dar as opções possíveis para o melhor do meu paciente. Infelizmente, por vezes, a eutanásia faz parte dessas opções.
           A partir do momento que a decisão é tomada, na minha opinião, deve-se avançar com a eutanásia o mais rápido possível, unicamente com o objetivo de aliviar o sofrimento do animal o quanto antes. O procedimento em si é perfeitamente indolor e permite uma partida tranquila. É administrado, diretamente na veia, um anestésico em sobredosagem que permite o adormecimento, a perda de consciência, a diminuição de movimentos respiratórios e, por fim, a paragem cardíaca. Custa sempre. Estaria a mentir se dissesse que me era indiferente. Por isso mesmo apenas consigo fazê-lo quando tenho a certeza de que é a escolha certa, quando tenho a minha consciência tranquila, quando sei que, dadas as circunstâncias (sejam elas quais forem) foi o melhor para o meu paciente. A decisão é dos donos, mas o ato em si é feito por mim. Sinto sempre que parte da responsabilidade é minha. Cabe-me eutanasiar o animal e trazer serenidade e força aos donos ao longo de todo o procedimento.
          Nestas situações sei que faz parte do meu papel enquanto médica, pensar na parte humana e trazer palavras de consolo aos donos. Quando os bicharocos já cá não estão, posso desviar a minha atenção do bem estar deles e pensar no sofrimento dos donos. Recorrer à minha experiência pessoal é importante. Eu sei o que é que as pessoas estão a sentir, sei o que estão a pensar, sei o sofrimento que as espera quando chegarem a casa, sei o que lhes vai passar pela cabeça amanhã de manhã. Também já passei por tudo isso. É nesse sentido que apelo sempre a lembrarem-se das boas memórias que tiveram com o seu animal de estimação, em toda a felicidade que lhes conseguiram trazer enquanto eram vivos e, principalmente, em como a decisão que tomaram foi a correta.
        Depois de tudo ter acabado, quando estou sozinha, dou finalmente voz aos meus próprios sentimentos. Ao fim ao cabo, também sou humana. Por vezes choro, noutras alturas sento-me a fitar o vazio que a dor traz aos meus pensamentos e, por vezes, simplesmente vou para casa e escrevo sobre o assunto. Nós, médicos veterinários, lidamos com sofrimento e morte no nosso dia-a-dia. É emocionalmente desgastante e muito duro. Sei que, com o tempo, vou ganhar uma carapaça emocional onde me posso esconder para conseguir ultrapassar estes momentos de forma mais natural. No entanto, por agora, escudo-me na consciência tranquila de que fiz o melhor que estava ao meu alcance e procuro nas palavras uma noite de sono sem sonhos que a noite serena e escura me está a oferecer.



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