sábado, 20 de fevereiro de 2016

Reencontro na saudade


            Sinto falta. Saudade de me perder neste mundo sem fim, de pôr à prova os limites da mente, de dar liberdade às pontas dos dedos para procurarem o caminho toscamente talhado entre as palavras. É uma necessidade intrínseca que tem sido ignorada por demasiado tempo. Posta de parte por prioridades do foro da vida real. Por isso tenho saudades. Por isso sinto falta. Por isso procuro encontrar-me novamente neste limbo de letras escondidas. Ao escrever, sinto-me completa de novo. Parece que me perdi de mim própria, neste mundo novo. E agora, a ansiedade e o entusiasmo que sinto ao ver à minha frente uma página em branco, leva-me a sorrir ao construir, a pouco e pouco, tijolo sobre tijolo, este texto de nexo dúbio. Com os sonhos a chamar por mim, faço um esforço por manter os olhos abertos e procurar as palavras corretas que sempre me conseguem aliviar este peso sobre o coração, esta fadiga de não sei bem de quê e achar algo que quase parecia perdido neste mapa do tesouro sem cruz. Olho para cima e vejo uma luz branca que entra no quarto escuro através de um buraco no teto. Levanto-me a pouco e pouco, abro a janela e respiro o ar puro, num esgar um tanto sofrido e pronto a relaxar. 
           De vestido branco e vaporoso, corro por entre as ervas altas do prado verde e solto um sorriso de criança despreocupada. Estendo as mãos pequeninas em direção ao sol e cai-me nas palmas uma laranja. Sujo os lábios e as rosetas inocentes da face ao provar o seu sumo. Ah, agora sim, estou no paraíso! Longe de preocupações, perdida entre letras pretas e os confins da minha mente, sinto o espírito levitar quando reencontro a pura felicidade neste mundo que não é apenas meu, mas ao qual pertenço para a eternidade. Estendo-me no relvado, por baixo da sombra de um sobreiro de galhos perfeitos e admiro a luminosidade, deste dia de primavera, a passar gentilmente por entre as folhas. Estendo os bracinhos curtos e abro as mãozinhas de idade tenra. O vestido branco mantém-se branco. Neste canto, onde a água do lago brilha que nem diamantes, não me consigo sujar. Tudo é perfeito, no refúgio paradisíaco para onde vou quando encho uma página em branco com palavras aparentemente soltas. 
           É então que a saudade foge e sinto as pontas dos dedos dormentes. Nesta tela só minha, a falta de algo desaparece, e acabo por me encontrar de novo. Fecho os olhos calmamente e aconchego-me na almofada fofa que, subitamente, surgiu por baixo dos meus cabelos encaracolados. Chegou o momento de me render à vontade das pálpebras pesadas. Ao lado de mim própria, sussurro no meu ouvido: Amanhã é um novo dia. A sorrir, fecho os olhos e, tal como sempre, termino a última frase com um ponto final.

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