domingo, 10 de janeiro de 2016

Terra à vista!



Na escuridão de quem apenas sente, procuro em mim a voz da razão. Algo que me indique o que devo ou não pensar. Uma luz verde para a realidade. Olho para a gata a ronronar tranquilamente no meu colo. Parece tão feliz. Uma aura branca irracional e inconsciente. Será a falta de razão a verdadeira cura? Mas se assim o for, apenas poderei ser eu própria se não passar de um vegetal. E que vida seria essa? Imagino-me, uma batata aconchegada na terra húmida, uma alface ao sol, uma árvore a inspirar dióxido de carbono. Momentaneamente, sinto uma onda de calma apoderar-se de mim. Nenhuma outra preocupação para além da busca de água no subsolo. É isso que quero? É a isso que aspiro? Ser um sobreiro a dar sombra a um pastor cansado apoiado num cajado sujo, no dia mais quente do ano? Que vida seria essa?
          É então, de repente, que entendo que aquilo que procuro e encontro ao ser uma planta, não é a falta de preocupação, mas a falta de medo. A confiança de que o amanhã não me vai fazer mal nenhum. A absoluta inexistência do receio. Ao pensar nisto, apercebo-me que a solução parece ser tão simples como o surgimento da questão. Procurava o encontro da razão com o foro emocional. Parece-me bastante certo que a ponte entre estes dois locais nada mais é que a pura confiança. Se me sentir capaz, então o sinal passa de vermelho para verde e consigo ver o mundo dotado de uma clareza que antes não tinha. Se olhar para mim como alguém que está no sítio certo, à hora certa, então a emoção sai da escuridão onde se tinha aninhado e, no meio da tempestade, consigo elevar a cabeça por entre as ondas do mar salgado e ver terra à vista. E é assim que devo permanecer. A nadar com braçadas largas para terra firme; a procurar a confiança que me pertence; a ser o sobreiro com a melhor sombra de que sou capaz.

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