sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Devaneios de uma mente em branco



Calton Hill, Edimburgo

                A manhã aclara num sol que acorda e nasce. Apesar de ser um trabalhador árduo e de se levantar sempre de madrugada, hoje consegui ultrapassar a sua proeza diária. Quando saí de casa, ainda ele estava a estremunhar na cama, a revolver-se nos lençóis, a espreguiçar os seus raios e a bocejar iões de hidrogénio, qual estrela de olhos ensonados. Agora que estamos os dois acordados mas ainda partilhando alguma dormência, ele sente que deve quase vazar-me uma vista com a sua luz intensa a entrar deliberadamente pela janela do escritório. Viro os olhos para a rua e imediatamente solto um resmungo mental. “Credo, tanta luz. Pá soice, também não era preciso tanto”. Inspiro fundo e coloco os dedos sobre o teclado do computador. Carrego em letras e as palavras aparecem. E, no fim, quase que por magia, as frases começam a nascer e a crescer. E acontece sempre da mesma forma. Aquilo que me vai no cérebro escorre para a folha em branco, passando pelo pescoço, ombros, braços, mãos e pontas dos dedos num fluído, numa aura, sei lá, num género qualquer de energia. Imersa na forte convicção de que o ideal, enquanto se faz o primeiro rascunho, é não pensar muito naquilo que se quer escrever, os dedos mexem-se em frente dos meus olhos, completamente fora de controlo. Como se o que quer que seja que nasce à minha frente passasse do córtex cerebral para a ponta dos dedos sem sofrer qualquer filtro, sem sequer pedir permissão à minha consciência para ser escrito. É quando sai melhor. Como gosto de dizer de forma romântica, “vai diretamente do coração para a folha em branco”. Pois é, também eu sofro da tendência para cair em lugares comuns. Acontece. A verdadeira mestria recai na capacidade de identificar e apagar as palavras que formam frases que nos transportam para os tais lugares comuns. Mas que lugares são esses? É a praça onde se vende o peixe? É o café mais famoso da terra? Como é que as palavras se tornam comuns? Penso que é quando escolhemos as frases que transmitem uma determinada ideia que toda a gente já sabe, mas que gosta sempre de ouvir, (oh!), só mais uma vez. Não é algo necessariamente mau. O mundo é feito de lugares comuns. É instintivo da nossa espécie permanecer onde nos sentimos mais em casa. No entanto, sei que a magia reside quando nos conseguimos afastar dos lugares comuns pois, aí, surpreendemos o leitor da melhor forma possível. Como pegar num copo com um sumo cor-de-laranja e depois, ao provar, apercebermo-nos que, afinal, sabe a morango. Ai, raio do Sol que já acordou em definitivo e insiste em queimar-me a cara. Chegou o segundo momento da escrita: o trabalhar da frase, reler as ideias expostas em bruto e limar as arestas que picam quando se lêem. No entanto, ao analisar a bagunça que fiz com este texto, vejo que todo ele é feito de arestas. Fogo, que desarrumação! Está tudo espalhado pelo chão: as ideias, o fio condutor, para não falar das conclusões que pairam dispersas no ar do quarto, como o pó que nasce antes de poisar nos móveis. No entanto, por vezes, é no declínio que surge a obra. Pelo menos é uma ideia na qual me sinto forçada a acreditar porque, se não, aquilo que estive a escrever na última meia hora não serve para absolutamente nada. E agora surge-me outro problema. Como terminar esta trapalhada? Vejo as palavras a aparecerem à minha frente, no entanto, nenhuma das frases escritas até então é suficientemente boa para poder ser o final do texto. Pois é. É este o problema de querer escrever quando não se tem um assunto concreto sobre o qual se consiga desenvolver. Quando existe a vontade mas a mente está em branco, os devaneios tomam poder. E quando os devaneios se instalam, não existe uma boa forma de terminar o que quer que seja. Se calhar, o melhor é acabar isto abruptamente e fugir pela porta mais próxima sem que ninguém me veja. Talvez, se em mãos de poeta surge um verso e em mãos de lenhador surge uma fogueira…

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