domingo, 22 de novembro de 2015

As uvas da minha felicidade





Estou mergulhada numa nova fase da minha vida, onde navego por emoções que nunca antes tinha sentido de forma tão intensa. É tudo de tal forma em tanta quantidade, que dou por mim sem saber como reagir. A principal emoção que prevalece e que causa um ruído constante na minha alma é a profunda felicidade. Nunca na vida tinha sentido uma felicidade tão extrema, entranhada e que insiste em não desaparecer. É de tal forma forte que sinto formigueiros na barriga a toda a hora, o coração a bater tão velozmente que parece ser capaz de me partir as costelas a qualquer momento e as horas de sono que deviam ser vividas a dormir, acabam por ser roubadas por este sentimento que toma completamente conta de mim. Observando as minhas reações físicas, apercebo-me que a intensa felicidade e o extremo stress acabam por se manifestar da mesma forma. É desgastante. No entanto, não são exatamente a mesma coisa. A grande diferença, é que o stress faz-me ter a necessidade de gritar de desespero e a pura felicidade leva-me a sorrir e quase chorar de alegria.
          Ao longo dos anos, o corpo habitua-se a uma determinada dose de cada emoção e é capaz de gerir esses sentimentos de uma forma praticamente autónoma, sem ser necessária a intervenção da lógica cerebral. Como se guardássemos no nosso sistema límbico um alguidar para cada emoção, com as proporções necessárias para não transbordar. Porém, esta extrema felicidade que me fulmina, é tão nova e intensa que sinto que já está a ocupar todos os alguidares que tinha de reserva e, mesmo assim, continua a transbordar. Como na altura das Vindimas. Recebemos sempre uma caixa de madeira cheia de uvas absolutamente deliciosas. Inicialmente, parece a melhor coisa do mundo e queremos aproveitar ao máximo o sabor doce libertado por aqueles bagos quase celestiais. No entanto, rapidamente entendemos que temos mais uvas do que aquelas que conseguimos, de facto, consumir e, no fim, damos por nós sem saber o que fazer com tanta fruta tão saborosa. É precisamente essa a minha situação só que, em vez de ser uma caixa cheia de uvas, trata-se de um coração envolto em felicidade.
        Quando estou sozinha e posso reagir como bem entender, dou por mim a tecer sorrisos rasgados, a bater palmas de emoção, e a sentir as lágrimas a formarem-se nos olhos. Porém, acabo por aperceber-me que, mesmo que o sorriso fosse rasgado ao ponto de ultrapassar as orelhas e as comissuras labiais se unirem na nuca, nunca seria suficiente para transparecer aquilo que sinto.
        Durante uns minutos, preocupo-me com o que fazer com a felicidade que se escapa por entre os dedos e que penso não conseguir aproveitar ao máximo. Por fim, depois de algum tempo a caminhar numa ténue angústia, os cachos de extrema alegria vedam-me os olhos ansiosos da mente. “Caramba…”, começa uma voz sensata dentro de mim, “cresceste a desejar isto, moldaste toda a tua vida de forma a conseguires concretizar este sonho. E finalmente chegaste lá. Deixa-te de merdas emocionais. Finalmente és Veterinária. Aproveita!” É neste momento que entendo que a única coisa a fazer, a verdadeira chave, consiste em comer as uvas, cuspir as grainhas e não pensar em absolutamente mais nada.

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