segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Receios de um ateu


          
Sacré-Coeur, Paris


           Por vezes dou por mim a flutuar na linha ténue que separa a inconsciência da total inexistência. Quando acordo e abro os olhos, relembro a escuridão e sinto-me estremecer. Os músculos dos braços tremem, os batimentos do meu coração aceleram e experimento uma crescente dificuldade em respirar. Quando me acalmo, percebo que já acabou. Estou a pensar, estou a sentir, logo estou viva. É então que uma dúvida terrível atravessa o meu espírito, como uma agulha em brasa no meio do peito: “E depois, como será?”. Sento-me e fixo o olhar na parede sem, no entanto, nada conseguir ver. “Inevitavelmente vais chegar lá.” Apetece-me calar a voz interior que parece insistir em perturbar-me. Mas não consigo. A minha consciência e o medo são mais fortes que a minha livre vontade. É então que ela se solta e fala, num murmúrio docemente assustador, sem rodeios nem eufemismos: “Quer queiras quer não, vais deixar de existir. O teu corpo vai ficar imóvel, rijo. Depois, acabarás por te decompor até que chega a um ponto em que o teu DNA vai evaporar-se deste mundo como se tu nunca o tivesses pisado. A tua mente vai deixar de existir. Os teus pensamentos vão parar de nascer e crescer. Os teus gostos vão deixar de ter qualquer importância, até para ti própria, pois já não vais precisar deles para nada. O que não existe, não quer, não deseja, não precisa, não vive. O teu mundo vai passar a ser escuridão, um buraco negro que já não suga.” Arregalei os olhos de pavor e senti o coração pesado, qual criminoso à espera da forca. Nem lágrimas conseguia derramar, tal não era a paralisia que se apoderava dos meus músculos. Senti calafrios no pescoço e suor frio a formar-se na testa. “ E pior que tudo”, continuava a voz dentro mim, impiedosamente, “vais estar rodeada de um céu sem estrelas, mas nem te vais aperceber disso. Pois quando já não existires, não vais ter consciência para saberes que já não existes.” Voltei a deitar-me e agarrei-me com força aos lençóis. “E a tua inexistência vai prolongar-se para a eternidade. Agora pisas a terra, sentes o sabor da comida, a vontade de coisas, o acordar de manhã e presenciar o nascer do sol. Mas quando fores húmus, vais transformar-te em nada. Voltas a ser aquilo que eras antes de nascer. Lembras-te de como era? Pois, claro que não. Não existias, logo não podias ser dotada de memória. Aquilo é o que serás quando soltares o último sopro. E será para sempre.”
           É neste momento, neste tormento horrível de um medo que não posso evitar, que sinto a necessidade de acreditar nalguma coisa. A ideia de não existir é tão terrível e incompreensível para mim, que começo a invejar aqueles que acreditam na vida para além da morte. Vida para além da morte… Eu nem precisava que fosse vida. Bastava-me ter a minha consciência. Pelo menos, ter a noção de que estou morta. Praguejo contra a minha mente. Era tão mais fácil se acreditasse! Até podia ser tudo mentira. Mas, ao menos, não me atormentava com tudo isto enquanto estivesse viva. Mas aquilo que sou, a consciência que tenho, aquilo em que me tornei, o que absorvi do que o mundo tinha para me dar, não me permite imaginar outro fim, para além da absoluta inexistência que nem o nada inclui.
           É então que sigo para outra fase. Depois do temor, vem a resignação. Quando algo de mau não pode ser evitado, ao menos podemos não nos preocupar com o assunto… para a eternidade. Volto a fechar os olhos e aconchego a cabeça nas almofadas. Mais vale aproveitar enquanto ainda sei que posso sonhar.

Sem comentários:

Enviar um comentário