domingo, 30 de agosto de 2015

Liberdade presa numa bolsa de pele




                A passear pela avenida junto à praia, sentia o sol a queimar-me a cara, os braços e as pernas. Estava na companhia da minha família e andávamos a ver o pequeno comércio de verão da vila. Não me podia sentir mais feliz. Foi rodeada nesta aura de profunda sensação de bem-estar que me deparei com umas mesas e quadros de pano que mostravam o trabalho artesanal que uns viajantes estavam a vender para ganhar a vida. Aproximei-me e apreciei os colares exóticos e as malas de pele de camelo em exposição. Imediatamente senti uma vontade incontrolável de tirar a carteira da mala e ver quanto dinheiro tinha. Foi então que mirei com atenção o vendedor. Todos os verões o via aqui na vila, a vender o seu trabalho. Não devia ter mais que 30 anos. Com o cabelo loiro encaracolado transformado em rastas que tapavam as costas e um alargador em cada orelha que me permitia ver a praia através do buraco criado no lobo, brindava as pessoas que se aproximavam com um sorriso e uma descontração natural. Perto das mesas, estava também uma mulher, com um estilo muito semelhante ao do homem, que segurava um cão rafeiro de porte médio, com um pelo preto e brilhante. Imaginei-os a trabalhar no seu artesanato durante o inverno para, no verão, o venderem de cidade em cidade. Livres de emprego e com uma habilidade extraordinária para a transformação de objetos comuns em autênticas obras de arte, andavam país fora e ficavam onde tinham oportunidade. Era uma vida desprovida de garantias de futuro e de certezas no presente. Apercebi-me rapidamente que, por muito estranho que parecesse, uma parte de mim invejou essa vida. O dia-a-dia recheado de liberdade. Dependiam apenas da necessidade que as pessoas têm em adquirir coisas bonitas e originais. Não tinham casas para manter, filhos para criar, patrões a quem agradar. Eram jovens e viviam como se o fossem para a eternidade. Eram, no seu sentido mais profundo, senhores de si mesmos. Viviam verdadeiramente livres. Comecei a ponderar a minha própria vida, os meus objetivos, o meu dia-a-dia. Encontrei imensas regras, sociais, legais, morais, pelas quais moldo tudo o que faço. Sinto-me livre, sou eu que tomo as minhas próprias decisões. No entanto, não consegui evitar perguntar-me se aquilo que vivo não será meramente uma sensação falsa de liberdade, presa numa cela enorme em forma de labirinto que me dê uma ideia enganadora de que sou senhora da minha vida. Temo o incerto e não sou capaz de levar a vida numa livre descontração. Tudo tem que ter etapas e o meu grande, finalíssimo objetivo, é encaixar-me na perfeição nesta sociedade que me impõe um trabalho, uma casa, estar sob as ordens de alguém ou a mandar noutras pessoas. Tenho que acabar o curso. Tenho que arranjar um trabalho. Tenho que ser independente. Tenho que descontar para a minha reforma. Tenho que arranjar alguém se quero, alguma vez no futuro, fazer uma família. Tenho que lutar pelos meus direitos. Tenho que cumprir os meus deveres. Caramba! Tantos “tenhos” que até me sinto a sufocar. É isto que é ser-se verdadeiramente livre? Voltei a imaginar a vida daqueles dois vendedores de artesanato, com rastas em vez de cabelo penteado, com alargadores nas orelhas em vez de brincos de pérolas, com roupas confortáveis em vez de fato e camisa. Viajando de cidade em cidade, com o sol a queimar a pele dos braços, com um rumo mas sem destino. Não consegui evitar sentir inveja desta profunda ideia romântica de liberdade. Foi mergulhada numa estranha resignação que me aproximei do vendedor de artesanato e perguntei:
                - Boa tarde, quanto custam as malas?
             Abri a carteira tirei o dinheiro e comprei a mala de pele que me agradou mais. A caminho de casa não conseguia deixar de olhar, maravilhada, para o objeto precioso que acabara de adquirir. Podia não ser verdadeiramente livre mas, ao menos, pude escolher comprar a mala ao homem das rastas e trazer comigo, guardada no interior da bolsa de pele, um pouco da liberdade a que aspiro.

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