sexta-feira, 3 de julho de 2015

A sociedade invertida


Dinamarca, Copenhaga

Sinto uma enorme instabilidade no ar que me rodeia. Não a sentem também? Como se um terramoto estivesse prestes a suceder, mas ainda não decidiu se há de destruir tudo para nos obrigar a reconstruir edifícios mais fortes, mais sólidos, mais seguros para todos. Sinto História a acontecer por baixo dos meus pés, na Terra que piso, neste mundo em que existimos. Estamos em crise. Vivemos uma crise económica, uma crise política, uma crise moral. Por vezes, dou por mim a pensar como chegámos a este ponto? Vivemos numa democracia. É? Bem, pelo menos é assim que classificam o nosso sistema político. Uma ditadura não é, de certeza, se não seria tudo muito pior. No entanto, pergunto-me se não seria possível melhorar a nossa democracia. Será que ela foi, alguma vez, melhor? Gosto de acreditar que sim, que há muito por onde crescer. No entanto, sinto-me incapacitada para fazer o que quer que seja. Parece que me querem fazer acreditar que é necessário empobrecer e sacrificar uma multidão à miséria para ficarmos todos muito melhor. Mas, quantos miseráveis serão necessários? Como é que se escolhem os sacrificados? Será que eles não podem ter poder para decidir se concordam com tudo isto? Julgava que a democracia era isso mesmo. Dar às pessoas hipótese de escolher o que querem para as suas vidas. No entanto, sinto que esta democracia distorcida é mascarada e passada despercebida pela necessidade que temos de pedir dinheiro emprestado para sobreviver. Como numa família onde se gasta mais do que o rendimento que se obtém. Por vezes as pessoas caem na desgraça de ser forçadas a pedir dinheiro emprestado à única entidade que se atreve a ajudar. O problema é que, para pagar essa dívida, os filhos têm que passar fome, sair da escola, ter menos direitos de saúde, às vezes até chega ao ponto de ser necessário viver por baixo de uma ponte. No fundo é isso que somos. Uma família disfuncional que “vive acima das suas possibilidades” e precisa de empobrecer para depois poder enriquecer outra vez. No entanto, esta ideia confunde-me. Eu nunca vivi a cima das minhas possibilidades. Nem eu, nem a maioria das pessoas que conheço. E vejo, à minha volta, toda a gente a empobrecer, restaurantes locais a fechar, os preços cada vez mais baixos nas lojas, as filas para a segurança social a aumentar, as injustiças no local de trabalho a ultrapassar os limites do razoável, a humilhação de ter um curso superior e ter que aceitar um ordenado mínimo para um trabalho extremamente especializado, as lágrimas daqueles que são obrigados a separarem-se das famílias em busca de uma vida mais justa. Quando é que é suposto começarmos a enriquecer? Quando já não houver pessoas formadas para ocupar os postos de trabalho que hão de abrir um dia? Parece-me óbvio que esta ideia da austeridade, do “crescimento negativo”, não funcionou como era suposto. No entanto, depois de 1 milhão de desempregados, de milhares de pessoas a perderem 50% do seu ordenado mensal, de famílias inteiras a deixarem de ter um teto, de idosos a passarem fome e sem possibilidades para comprar os seus medicamentos, a Europa e o FMI continuam a querer cerrar ainda mais a austeridade na Grécia. Famintos de justiça e desesperados por um futuro melhor, os gregos uniram-se e ganhou um partido de esquerda que parece, pelo menos, estar a tentar lutar por decisões mais humanitárias. Parece que finalmente surgiu alguém que quer fazer frente aos tubarões. Porém, muitas vezes pergunto-me se os tubarões sabem que são tubarões. Será que eles têm noção no mal que estão a fazer às pessoas? Seremos apenas números neste mundo económico? É aqui que eu chego à conclusão que vivemos numa crise moral. Os miseráveis não têm valor. Nunca tiveram. No entanto, começa a ser difícil controlar os desesperados quando se juntam aos milhares. E não há nada mais perigoso que pessoas que já não têm nada a perder.
                Neste momento, o futuro é imprevisível. O meu lado sensato leva-me a temer o que pode estar para vir. Mas o meu lado jovem e revolucionário anseia que a tirania aceite deixe de ser vista como, pior que normal, necessária. Neste momento, tanto pode ficar tudo na mesma, como pode ser o início da mudança. De uma democracia melhorada. De uma moral encontrada. De um futuro mais risonho. De uma lufada de ar fresco. De um mundo mais nobre para todos.

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