terça-feira, 28 de julho de 2015

A marcha do desesperado

Lugo, Espanha
         Jonas fixava o teto branco de olhos abertos, exibindo na face um esgar amedrontado e profundamente cansado. Há quanto tempo estava acordado, deitado numa cama confortável que temia perder dentro de pouco tempo? Será que chegara sequer a adormecer? Virou o pescoço e olhou para o relógio. Já passava da hora do almoço. Jonas não dormira um único minuto naquela noite. Era um facto. Sentou-se devagar e mirou-se no espelho do roupeiro. Fitava-o de volta um homem desgrenhado, magro e desesperado. Como chegara àquele ponto? Levantou-se e dirigiu-se à cozinha. Loiça suja do pequeno-almoço apresentava-se em cima da mesa. Provavelmente a mulher já levara os miúdos para a escola. Para onde iria ela depois? Almoçar com uma amiga? Chorar no ombro da irmã? Estava desempregada e, mesmo assim, passava os dias fora de casa, deixando Jonas sozinho, completamente entregue a si próprio. Já se tinham amado um dia. Para onde fugira a magia que partilhavam? No meio de tantos problemas e dificuldades, parecia que não existia espaço para mais nada a não ser uma crescente amargura que criava uma barreira entre o casal. Jonas tirou uma cerveja do frigorífico e sentou-se na sala, a ver televisão. Mirou as cartas abertas em cima da mesa de jantar. Contas. E mais contas. Sentia uma dor agoniante no estômago sempre que olhava para elas. O mês ia a meio, a despensa estava quase vazia e o dinheiro que ainda tinha no banco dava-lhe à justa para pagar as malditas contas. No entanto, reparou numa carta selada que a mulher lhe deixara por cima dos outros papéis. Com uma súbita sensação de náusea, Jonas correu para a mesa, agarrou na carta e abriu-a. Sentiu-se desfalecer de desespero quando percebeu que era a conta do gás que chegara naquela manhã. Vinte e cinco euros. Sentou-se numa cadeira e sentiu as lágrimas virem-lhe aos olhos quando percebeu que já nem sequer tinham dinheiro para pagar uma ridícula conta de vinte e cinco euros. Jonas colocou os cotovelos em cima do tampo da mesa e cobriu a cara com as palmas das mãos. Amaldiçoou os dias que resmungara do trabalho que tinha, das horas extra que era obrigado a fazer, da ingratidão do patrão, do ordenado baixo que recebia. Quando o restaurante onde ele e a esposa trabalhavam fechou, Jonas ficou desempregado. Fartara-se de procurar. Mas ou já era demasiado velho, ou não tinha experiência, ou não tinha um curso, ou era temporário. Há mais de seis meses que nem Jonas nem a mulher trabalhavam e a situação estava a tornar-se desesperante. Mesmo sabendo que era injusto e que lhe destruía o espírito na base diária, se lhe dessem a oportunidade, Jonas aceitaria, de muito bom grado, o antigo trabalho que lhes dava, pelo menos, uma vida digna. Pensou nos filhos, um adolescente, outro ainda uma criança. Se nem sequer tinha dinheiro para trazer comida para a mesa, como é que lhes conseguiria dar um futuro? Foi com imagem dos filhos na cabeça que Jonas pensou numa solução. Não resolveria a situação a longo prazo, mas ao menos permitir-lhe-ia livrar-se daquela divida humilhante de vinte e cinto euros. Determinado, limpou os olhos e dirigiu-se de novo para o quarto. Tirou do roupeiro o seu melhor fato, vestiu-o, barbeou-se, perfumou-se e penteou-se. Tornou a mirar-se no espelho e inspirou fundo. O homem assustado continuava a fitá-lo de volta. Mas, ao menos, tinha um ar apresentável. Teria a coragem para seguir em frente? Nunca fizera nada daquele género. Antes de sair de casa, pegou nos cartões de cidadão dele e dos filhos. Deambulou pelas ruas do bairro até arranjar dentro de si força para tocar à campainha de uma vivenda. Veio à porta um homem de meia-idade que envergava uma T-shirt larga e uns calções. Subitamente, Jonas sentiu-se ridículo por estar vestido com um fato no meio de tanto calor. Foi então que se apercebeu que não sabia o que dizer. Não prepara um discurso e não fazia ideia do que era suposto dizer-se quando se pede esmola.
               - Boa tarde – cumprimentou o homem que abriu a porta. – Posso ajudá-lo?
            - Bo…Boa tarde – respondeu Jonas, enquanto sentia o suor a escorrer-lhe pelas costas. – Espero que esteja bem, me… meu senhor. Sabe, eu tenho aqui um problema e não sei o que fazer, sabe? É uma situação que, pronto… não sei… não sei mesmo…
           - Tenha calma! – exclamou o homem da vivenda, enquanto se aproximava do portão para ver melhor a cara de Jonas. – Explique-me o que deseja, que eu não consigo entendê-lo – pediu, num tom de voz extremamente simpático e preocupado.
              Incentivado por uma voz aparentemente amável, Jonas inspirou fundo, acalmou-se e pensou na melhor maneira de expor a situação.
              - Estou com problemas de dinheiro e já não sei o que fazer. Recebi uma conta do gás de vinte e cinco euros para pagar e preciso de ajuda. – Jonas vislumbrou na face do homem da vivenda um olhar desconfiado. Colocou-se na pele do interlocutor e percebeu que o seu discurso é comum na boca de burlões. Em desespero, tirou os cartões de cidadão dos filhos dos bolsos e colocou-os na mão do vizinho. – Esses são os meus filhos. Mal tenho comida para lhes dar. Moro num apartamento, duas ruas abaixo da sua. Eu e a minha mulher ficámos desempregados e já nem sequer consigo arranjar vinte e cinco euros para continuar a ter gás em casa. Olhe, sinceramente, eu não sei o que lhe dizer mais. Nunca fiz nada deste género. Hoje levantei-me e percebi que tinha que pedir a ajuda dos meus vizinhos para sobreviver…
                Instalou-se um curto silêncio, em que o homem da vivenda o perscrutou, muito sério. Por fim, Jonas conseguiu vislumbrar nos seus olhos um enorme sentimento de pena derivado de uma empatia profunda.
              - Espere só um bocadinho. – pediu o vizinho, enquanto voltava a entrar em casa.
       Jonas esperou, nervoso, que o seu apelo tivesse chegado ao coração do seu interlocutor. De repente, o homem tornou a sair de casa, carregando consigo numa mão um saco cheio de comida enlatada, massa e arroz e na outra uma nota de cinco euros.
           - Tome lá, homem. Alimente os seus filhos e dou-lhe ainda uma ajuda para a conta do gás.
             - Obrigada… - agradeceu Jonas, genuinamente, com a voz sumida e emocionada.
            - Não tem que me agradecer – respondeu, com uma simplicidade que surpreendeu Jonas. – Aquilo que lhe aconteceu, nos dias de hoje, com a crise que anda aí, podia muito bem ter-me acontecido a mim. Temos que nos ajudar uns aos outros.
        Com um meio sorriso nos lábios, o homem da vivenda voltou a entrar em casa, deixando Jonas sozinho, no meio do calor. Olhou para os cinco euros que tinha na mão. Ainda lhe faltavam vinte. De repente, caiu-lhe sobre os ombros a noção de que acabara de pedir dinheiro a um completo estranho. Fazia isto dele um pedinte? Sentiu-se extremamente revoltado e apeteceu-lhe mandar o mundo à merda. Foi ao guardar os cartões de cidadão dos filhos no bolso que se lembrou porque é que saíra de casa, naquele dia em brasa, com um fato vestido, para tocar de porta em porta. De costas erguidas, Jonas esticou o pescoço e, agarrando-se à réstia de dignidade que ainda possuía, retornou à marcha do desesperado.

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