quarta-feira, 17 de junho de 2015

Insónia feliz




                Rebolo na cama e fecho os olhos. Mudo de posição e cerro as pálpebras com força até sentir as pestanas nas bochechas. Arranho os lençóis. Ajeito a colcha por cima de mim. De repente, parece que a mente decide, finalmente, querer partir para a outra dimensão, perder-se nos limiares do submundo do inconsciente. Porém, subitamente, o coração começa a palpitar e regresso, uma vez mais, ao mundo dos acordados. Volto a mudar de posição, ligeiramente irritada. Experimento deixar a mente vaguear por onde ela quiser. É então que começo a pensar no futuro, nas aventuras que ainda estão para vir, nas possibilidades em aberto, no quão entusiasmada estou com tudo o que me rodeia e me espera. As palpitações retomam. Por muito que cerre as pálpebras, não consigo chegar à terra dos sonhos. É então que, momentaneamente, desisto. Abro os olhos, estico o braço e, na escuridão da noite, sinto o pelo da minha gata a dormir encostada à minha barriga. Sorrio e uma sensação de leveza apodera-se de mim. É neste momento que percebo que me sinto extremamente feliz. Dentro de mim corre uma estranha onda, que raramente nos encontra: a mais pura das felicidades. Mergulhada nesta sensação, volto a fechar os olhos. Se estou contente, porque é que não hei de conseguir adormecer? No entanto, não tenho sucesso na minha demanda, apesar de todos os esforços. Embora tudo isto me pareça muito estranho, rapidamente entendo que estou a ter uma insónia. Mas porquê? Não é suposto ter insónias apenas quando me sinto nervosa, angustiada, a temer o dia seguinte? Não pode ser. Nunca me tinha acontecido. Deito-me de barriga para baixo e torno a cerrar as pálpebras com força. É desta! Inevitavelmente, volto a libertar a mente, qual labrador à solta na praia. É então que relembro os melhores momentos da minha vida. Os dias de Sol a chegar e a praia a chamar por mim. A maravilha que foi visitar Edimburgo. O quão bem me soube comer um croissant em Paris e as waffles à beira dos canais em Amesterdão. O curso a chegar ao fim. O episódio genial do final de uma boa série. A emoção de ler um bom livro. A sensação da minha gata a ronronar junto a mim. A experiência maravilhosa do chá de limão com mel a aquecer a minha garganta doente… Caramba, até o raio do chá, de repente, me parece algo do outro mundo! Abro de novo os olhos. Sorrio. É então que me rendo à derradeira realidade. Não consigo dormir, estou a ter uma insónia. Não sou capaz de me perder no sono, não porque esteja angustiada, mas porque me sinto extremamente feliz. De tal forma, que nem tenho forças para ficar frustrada com a ideia de ter sono no dia seguinte. Não consigo dormir. E depois? Estou feliz agora, tenho mais é que aproveitar. O sono há de vir quando tiver que vir. É então que, massacrada de contentamento, me entrego a mim mesma, nesta noite longa, nesta falta de enfado, neste mundo cor-de-rosa, nesta insónia feliz.

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