terça-feira, 2 de junho de 2015

A inutilidade do tempo





Naquele estranho limiar, quando uma pessoa não está a trabalhar, mas também não consegue distrair-se porque a consciência lhe diz que não deveria estar a olhar para o teto, o tempo é perdido numa espiral estúpida. É nestes momentos que vivemos no mundo daquele que não faz nem deixa de fazer. Um suspiro. As pálpebras semicerradas. O aborrecimento tremendo. De repente, apercebo-me de que estou cansada. Claro. Deve ser por causa disso. Uma pequena pausa, se calhar era boa ideia. Cinco minutos. Levanto-me. Vendo água sem caneco a 2 euros o litro. Volto a sentar-me. Ups, afinal passou meia hora. Não há problema, que agora é que é. Deixa-me cá pensar no que escrever a seguir.
        A inutilidade do tempo é uma ideia interessante. O tempo existe e passa de qualquer forma. E não tem, propriamente, uma maneira de ser. Para além disso tudo, é igual, transversal para todos. 60 segundos é sempre um minuto para toda a gente e decorre, inevitavelmente, no mesmo período. Não é uma coisa, não tem sentimentos, nem vontade própria. Sempre existiu e, como era demasiado abstrato, tivemos a necessidade de inventar uma escala para ter a noção do seu tamanho. No fundo, é a única maneira de nos conseguirmos encontrar para uma reunião ou para um jantar sem andarmos todos por aí feitos baratas tontas. Ora, se o tempo, no fundo, é uma discreta passagem pelo mundo, descrito em algarismos, então não pode ser inútil. Aliás, os mesmos minutos, para duas pessoas, conseguem ser úteis e inúteis, dependendo daquilo que se está a fazer e do valor que se lhe dá. Portanto, no fundo, o que é inútil não é o tempo. A inutilidade não está nos minutos, mas sim em nós. Nós é que somos inúteis. No fundo, nada mais fazemos, que espelhar no tempo o valor das nossas ações. Será uma forma de nos desresponsabilizarmos? Por exemplo, eu deveria estar concentrada a fazer tabelas e não consigo deixar de olhar para o teto branco enquanto a mente divaga. Pergunto-me, naturalmente, se tudo isto não será uma perda de tempo. Coloco questões existenciais. E, por fim, inevitavelmente, percebo que a culpa é minha. Eu é que não me consigo concentrar. Eu é que torno o meu tempo inútil.
       Tiro os olhos da parede e volto a mirar o ecrã do computador. Bocejo. Esfrego os olhos. Inspiro com força e ganho coragem. Como é que posso evitar que estes últimos minutos não sejam uma inteira perda de tempo? Sorrio. Já sei! Fecho o Excel e abro um ficheiro Word. Apenas sou capaz resgatar aquilo que perdi se, pelo menos, conseguir daí sacar uma crónica. É então que coloco as mãos sobre as teclas e começo a escrever: “Naquele estranho limiar, quando uma pessoa não está a trabalhar…

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