quinta-feira, 21 de maio de 2015

Um corpo na água




      

E se a nossa mente vagueasse pela paz deste mundo como um corpo a seguir a corrente no centro de um calmo oceano? Conseguem imaginar? O silêncio. A inutilidade do tempo. O infinito não importa. O que está para vir é um pequeno pormenor no meio de um mundo tão gigantesco. Correr para quê? Que mais somos, que formigas do nosso universo, a andar aleatoriamente, a parar uns em frente aos outros para depois prosseguirmos a nossa marcha desenfreada? Proporções devidas, somos o quê no meio das estrelas? Representamos menos que um grão de areia em Tróia. E esta ideia, ao contrário do que pensaria, não me traz angústia. Antes pelo contrário. Consegue tirar o peso do mundo das costas de Atlas. No universo, o que seria realmente alterado se tomássemos a decisão errada? Que influência tem pisar um terreno minado? Imagino o meu corpo a flutuar agora à superfície, a caminho daquilo que não existe. Que interessa se não existe? Só gostava de estar assim para sempre. A fixar as enormes estrelas, que tudo guiam, com os meus olhos secos, inexpressivos, a decomporem-se com o resto do mundo. Não tenho frio. Não tenho fome. Não tenho vida. Vagueio por aí, uma andorinha perdida, uma formiga pisada, um corpo na água. Que bem que me sabe a brisa que acaricia a minha pele pálida, quase roxa. Estou tão relaxada. Se conseguisse, fechava os olhos. Como fui aqui parar? Não me importa. Apenas preciso da sensação. Esta liberdade de preocupações. A súbita lucidez daquilo que realmente represento, das minhas ações sobre o universo. Tão bom. Não ser mais que matéria orgânica. O sal do mar tem um gosto muito agradável, pois não me pode dar sede. Não preciso mais de água, da mesma forma que não sou forçada a ter fome. Não tenho que movimentar o diafragma para respirar. Um corpo na água. A calma em vida. O vazio de pensamentos. A leveza de alma (quase que levito!). Uma onda de extrema felicidade. A pele engelhada a descolar-se das pontas dos dedos. O vestido leve a dançar com as ondas envergonhadas. Subitamente, o Sol tenta dar algum rubor à minha cara pálida, despida de emoções. Um corpo na água. Jazer assim por uns momentos, sabe-me tão bem. A calma de quem não vive, será a plena paz que procuramos toda a vida? E se for? Bem, se é, alegra-me saber que a vou, inevitavelmente, alcançar um dia. 

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