quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Introspeção




          
          Na ansiedade solene de quem está nervoso mas não sabe muito bem porquê, a carga elétrica aflora as terminações nervosas num estímulo doloroso, que me faz sentir calor no estômago, náusea e me leva a perguntar: “Porra, mas porquê?!”. Quando nos sentimos mal com o que quer que seja, a nossa razão tenta procurar nos confins da nossa alma o porquê de semelhante emoção, na esperança de poder cortar o mal pela raiz. O problema surge e mantêm-se quando não há respostas nos bolsos fundos do nosso espírito. O que fazer nestes momentos? Se não há motivo aparente para tamanha ansiedade, então seria de esperar que ficasse por aí, que seria tudo mais fácil. No entanto, não o é. Antes pelo contrário. O que fazer, quando existe consequência sem causa? Como eliminar uma resposta que surgiu sem estímulo? É neste momento que rebobino o pensamento.

Calma. Não é possível haver consequência sem causa, chatice sem problema, ansiedade sem um fator de stress.

Mas eu já olhei e não vi nada!

Então vê outra vez.

Juro que não vi mesmo nada.

Nunca te aconteceu estares louca à procura das chaves de casa, procurares por todo o lado, mala, bolsos, gavetas, secretária e, no fim, descobres que esteve sempre na mala, no primeiro sito onde procuraste? Nunca te aconteceu olhar sem ver?

O meu alter ego tem razão. Abro o saco e espreito novamente para dentro de mim. Mas desta vez com mais calma e paciência. Anseio tudo. Anseio descobrir porque é que estou ansiosa. Anseio entender de onde vem esta pressão. Anseio deixar de estar ansiosa. É então que vejo uma luzinha a piscar. Quase que me grita “Estou aqui! Estou aqui! Olha para mim! Desenvencilha-te de mim!”. Estico o braço e afasto o resto dos pensamentos, os outros sentidos e concentro-me na luz. Quando, finalmente, a consigo ver em toda a sua plenitude, entendo tudo. A causa que me anseia. E a resposta é tão inesperada, que não consigo evitar ficar surpreendida. Compreendo também porque é que ainda não tinha percebido nada. Na verdade, não há algo que se passe à minha volta que justifique aquilo que sinto. Ninguém me está a pressionar para nada. Os prazos ainda estão longe. No entanto, descubro que sinto medo. Medo de falhar, de desapontar alguém, de não conseguir fazer aquilo a que me comprometi. E é esse medo que me está a causar a ansiedade. É então que vejo que a causa é intrínseca. A única pessoa que me está a pressionar, sou eu própria. Não há mais ninguém para além de mim que me esteja a dizer “Atenção, não faças merda porque se não vai tudo por água a abaixo!”. Investigando um pouco mais, consigo perceber que esse medo surgiu devido à nova etapa que se está a iniciar. Porém, o desenvolver desta ansiedade, parte apenas da tareia psicológica que não consigo deixar de afligir a mim própria.
Já entendi a causa. Recosto-me na cadeira, mergulhando a fundo nos meus pensamentos. E agora? Como é que corto o mal pela raiz? O que fazer, quando descobrimos que o bully da nossa vida, somos nós próprios? Ainda não sei bem como escavar na terra, agarrar em que faca e arrancar a raiz certa. Mas estou a ficar com sono. Pelos vistos a escrita ajuda. É, ao mesmo tempo, o meio de diagnóstico e a medicação sintomática daquilo que sofro. Não cura nada, mas dá respostas e alivia os sintomas. As pálpebras estão a ficar pesadas e o coração mais leve. Sinto alívio, sinto alguma paz. Amanhã é outro dia.


Boa noite.

Sem comentários:

Enviar um comentário