sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Amesterdão



Diário de Bordo - 04/08/2014

          Amesterdão é uma cidade como nunca vi. Em termos sociais, é o sítio mais livre que conheço. Na terra onde não há tabus, qualquer um pode ser aquilo que tem que ser, desde que, claro, se mantenha o “peace and love”. Nunca senti tamanha descontração. Vê-se de tudo, mesmo. Principalmente agora, com a celebração do dia do “Gay Pride”. Na maioria das cidades, os principais dias e feriados estão ligados a revoluções, batalhas ganhas e independências reconquistadas. Em Amesterdão, há dois dias muito importantes, sempre acompanhados de muita festa e alegria por todo o lado: O dia do Rei e o dia do Gay Pride. Lembro-me de andar pelas ruas e de e recordar as imagens de um bar gay ardente que vira num episódio da série “Sexo e a Cidade”. Era todas aquelas vestes (ou a falta delas), os travestis, a roupa suja e a maquilhagem… mas tudo no meio da rua e não escondido num bar ou numa discoteca. Na “Gay Parade", barcos percorriam os canais com música alta e homens semi-nus (uns quantos vestiam apenas cuecas demasiado apertadas), a abanarem-se como se não houvesse amanhã. E as mensagens gravadas nas faixas e cartazes eram todas a apelar à tolerância, à paz e ao amor. “I am pride to be your friend”. “Fairplay – Fairgay”. Toda a gente estava contente, emocionada, eufórica. Era uma alegria demasiado contagiante para ser ignorada. Era a festa deles. Era a festa também dos outros. Era a festa de todos nós.
No país das tolerâncias, é permitido fumar ganza no meio da praça e há uma igreja e um parque infantil ao lado de uma casa de meninas, que se mostram numa montra a tentar fazer dinheiro justo e, mais importante, legal. Recordo-me agora da visita ao Red Light District. Sim, realmente faz confusão ver mulheres adultas quase nuas em montras a chamarem a atenção dos homens que passam. Apesar de ser legal, de até haver burocracia envolvida e de os tabus do sexo serem encarados de uma maneira completamente diferente, sei que não gostava que filha minha estivesse atrás daqueles vidros. No entanto, não considerei degradante, como outros afirmam. Ou, pelo menos, não é tão degradante como ver mulheres paradas numa esquina escura, a meio da noite, a entrarem em carros de perfeitos desconhecidos e sem proteção alguma da sociedade. Se é uma profissão que nunca vai deixar de existir, porque não aceitar o que está escondido e legalizar para proteção de todos?
Nunca me senti tão livre como aqui. Em Paris, por exemplo, ficava desconfortável por ter o cabelo sempre despenteado, as calças ruças ou por levar uma sweat-shirt para um restaurante. Aqui, não tenho problema algum com nada. Simplesmente, é suposto cada um andar como quer e não cabe a mais ninguém julgar. Acredito que crescer numa cidade como esta é impossível não se ter uma mente aberta e encontrar menos “absurdos” no mundo. As pessoas locais, que andam pelas ruas e nos atendem nas lojas, restaurantes e transportes são simpáticas, atenciosas… um mimo! No entanto, sofrem uma estranha transformação quando se sentam sobre duas rodas. Ficam extremamente impacientes, rudes e, por vezes, até perigosas. Tenho o som daquela campainha cravada na cabeça e parece que não quer desaparecer: “Trrim, trrim. Trrim Trrim!”.
        Terminando, Amesterdão é a terra dos hippies, das confusões históricas, da mais pura descontração juvenil, da quebra dos tabus e da liberdade mais um passinho à frente da sua maior limpidez.

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