quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Sr. João e Mr. John



                John é a aventura em pessoa. Nasceu para viver a vida ao máximo. Quando, na adolescência, viu o pai morrer de cancro com apenas 50 anos, John prometeu a si próprio que não iria desperdiçar um único segundo desta vida tão curta. E assim o fez. Procurou dentro de si as suas paixões e encontrou-as com uma facilidade que o espantou. Aproveitou a oportunidade única de ter uma família suficientemente abastada para conseguir seguir vida fora aquilo que lhe ia no coração. Aos 19 anos despediu-se da mãe e da irmã mais nova e viajou da Irlanda (sua terra natal), para os EUA. Em Nova Iorque, tirou um curso prestigiado de fotografia onde se destacou com excelência. Ao terminá-lo, determinou para si próprio o objetivo de vida que o motivaria para sempre: tentar que cada nova fotografia fosse mais próxima da perfeição que a anterior. John acreditava que existia, por aí, beleza desconhecida que devia ser procurada e guardada. Foi então que começou a viajar, sempre com a máquina fotográfica ao ombro. Trabalhava para arranjar o dinheiro suficiente que o sustentasse, no mínimo, quatro a seis meses a viajar sem parar. À medida que os anos foram passando, o seu nome e as suas fotografias começaram a ser falados nas redes sociais. John era tão bom e conhecido que passou a ser fácil encontrar trabalho na sua área, onde era muito bem pago. Um dos maiores medos de John era cair na armadilha de viver para trabalhar. O seu pai era assim. Praticamente não via o exterior do escritório e chegava sempre tão tarde a casa que nem conseguia conviver com a família. John esforçava-se por trabalhar para viver e nada lhe trazia maior prazer. No entanto, não conseguia evitar ser um profissional excelente, pois era guiado por uma paixão. Depois de alguns anos a formar um bom currículo e a ganhar os conhecimentos certos, apareceu-lhe a oportunidade da sua vida: uma vaga como fotógrafo da National Geographic. Com esta oferta, John conseguiu achar uma maneira de fundir o seu trabalho com a intensa necessidade que tinha de aventura. A partir desse ponto, acabaram-se os empregos temporários. Nunca pensou ser possível, mas conseguia, ao mesmo tempo, trabalhar para viver e viver para trabalhar. Visitava cada recanto deste mundo como se fosse o último. Encontrava beleza por todo o lado e tinha a habilidade artística de a gravar em fotografias. Corria vários países, desde as terras misteriosas da Índia, às savanas africanas até às ruas apinhadas de Tóquio. Aos 30 anos, John já passara por centenas de experiências fantásticas: subira à muralha na China, escalara os Himalaias, guiara um Jipe pelo deserto em Marrocos, tirara fotografias a 30 metros de um leão, descera a maior pista de ski dos Alpes, andara de canoa pelos místicos rios da Amazónia, entre muitas outras.
                Com o corpo magro e atlético, com os olhos e cabelo cor de mel, com a barba rasa por fazer e com as suas histórias maravilhosas, John tornou-se num grande sedutor. Não havia mulher que lhe resistisse e não existia mulher bonita a quem ele conseguisse resistir. Tinha uma amante em cada porto e amava-as a todas com a mesma sôfrega intensidade. Era um egoísta romântico, que andava pelo mundo a tirar excelentes fotografias e a partir corações.
                Perto dos 40, foi convidado a fazer uma coletânea com as suas melhores 200 fotografias e publicá-la sob a forma de um livro. Orgulhoso, John assim o fez. E dedicou o seu melhor trabalho ao seu falecido pai. Apesar de não concordar com a maneira como ele gerira a vida relativamente ao trabalho e à família, apesar de ter sido sempre uma pessoa um tanto ausente no seu crescimento, John reconhecia que fora graças ao seu pai que se tornara no homem que era…

                - Rita, podes preparar-me as vacinas?
                Atordoada, olhei para a médica que acabara de falar comigo. Há quanto tempo estava com a mente a milhas dali? Mirei o cão pequeno e com o pelo encaracolado e branco que estava em cima da marquesa. Por fim, voltei os olhos de novo para o seu dono, o Sr. João. Tinha os olhos e o cabelo cor de mel, a barba rasa por fazer e era magro. Devia ter perto de 40 anos. Provavelmente, não passeara pelas terras misteriosas da Índia, pelas savanas africanas ou pelas ruas movimentadas de Tóquio. Não fazia ideia se era um forte sedutor ou não. Aliás, na verdade, pouco ou nada conhecia da vida do Sr. João. Apenas sabia que era português e não irlandês. O Sr. João era a realidade do seu alter-ego, Mr. John, que eu acabara de inventar ao vê-lo entrar pela porta do consultório. Com um meio sorriso, olhei novamente para a médica:
                - Claro – respondi, enquanto me dirigia para o frigorífico.

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