quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Jonas


    


         A indiferença é uma coisa estranha, interessante e perigosa. Pouco ou nenhum impacto tem sobre a pessoa que a sente, porém, quando partilhada por muitos, pode ter um forte impacto sobre o mundo.

Sentada no conforto do sofá, a ver um programa na televisão que em nada enriquecia o meu intelecto, fui forçada a tirar os olhos do ecrã quando ouvi a chuva forte a bater nos vidros das janelas. Envolta nas quentes mantas, no sofá, mirei as labaredas da lareira que voavam alto, aquecendo-me o corpo e a alma. Credo, que conforto! É difícil descrever o quão bem estava, finalmente quente depois de um dia inteiro cheia de frio. Com o som da chuva a bater na janela, libertei a mente para o maravilhoso mundo da imaginação. Inevitavelmente, pensei o que seria se não tivesse uma casa para onde ir, uma sala onde pudesse estar abrigada, uma cama que me aquecesse. Veio-me à mente a imagem com a qual estamos, infelizmente, muito acostumados a conviver. Um mendigo à porta de um prédio, deitado sobre o chão duro, coberto por mantas ratadas, a tentar proteger-se dos pingos de água que lhe molham a cara sempre que o vento fica mais forte ou muda de direção. A imagem é sempre a mesma, o mesmo prédio, a mesma calçada, as mesmas cores, a mesma chuva, a mesma pessoa. Quase em tom de brincadeira, decidi desenvolver mais e mergulhar a fundo na minha imaginação. Quem é esta pessoa que está sempre na rua quando chove? De onde veio? Numa estranha naturalidade, como se o conhecesse há anos, decidi que este homem se chamaria Jonas.
Jonas está na casa dos cinquenta, com a pele escura devido ao sarro acumulado de vários anos. O cabelo preto emaranhado e a farta barba densa estão tão compridos que é impossível saber ao certo quando começa um e acaba o outro. Os dentes estão pintados de amarelo pelo tabaco e pela falta de uma escova de dentes. Não sei como, mas consegue sempre arranjar uns cigarrinhos, que são dos poucos prazeres que a vida ainda lhe dá. Jonas tem aquele cheiro característico de quem não toma banho há tanto tempo que já nem tem a certeza de se recordar do toque suave da água quente do chuveiro sobre a pele. É bastante magro, mas consegue esconder a subnutrição por baixo de duas camisolas de lã e um casaco velho vindo daqueles contentores onde gente com roupa a mais coloca aquilo que já não usa. Que fará ele durante o dia? Pede esmola? Crava cigarros? Rouba? Ou passará a maior parte do seu tempo sentado na calçada a ver as pessoas a andarem à sua frente sem o olharem, sem o verem, sem saberem que ele está ali, a poucos centímetros delas?
Enrugo a testa com um peso doloroso de culpa sobre o coração. Será que também já passei por Jonas sem me aperceber, ou a fingir que não o vejo?
No entanto, apesar do seu aspeto repulsivo para a sociedade, Jonas tem um brilho nos seus olhos escuros e encovados para quem o quiser ver. Nota-se que é um homem inteligente. Terá um dia dado uso às suas capacidades? Como caiu nesta miséria? Será daqueles casos clássicos de desemprego precoce de um bom cargo, num altura de crise? Terá sido Jonas um homem trabalhador que caiu em desgraça porque a sociedade deixou de lhe dar valor? Ou foi alguém que passava os dias a depender do dinheiro de alguém e, de repente, essa fonte de rendimento esgotou-se? Jonas levantou-se e sacou de um cigarro meio molhado que tinha no bolso. O primeiro da manhã. O momento alto do dia. Será que Jonas já comeu? Terá sítio onde comer?
O peso da culpa intensificou-se quando percebi que Jonas deve passar fome. Quantas vezes ter-me-á pedido comida ou dinheiro para comer e eu, pura e simplesmente, ignorei-o?
 Terá ele alguma casa comunitária por perto que o possa acolher? Deve ter. Então, porque é que está na rua a apanhar frio? Saindo de dentro de mim e pensando unicamente em Jonas consigo perceber porquê. Essas casas dão cama e abrigo, é verdade. Mas também dão horários e regras. A única coisa pura e íntegra que Jonas ainda mantém é a sua liberdade. Compreendo que a última coisa que ele faça é abdicar dela.
Por momentos, senti a necessidade de fazer qualquer coisa por Jonas. A culpa que sentia começava a incomodar-me brutalmente. “Da próxima vez que o vir, vou ter com ele e dar-lhe…” Um grito veio da série que estava a seguir na televisão. Voltei os olhos de novo para o ecrã e distraí-me completamente dos meus pensamentos e das promessas que estava prestes a fazer. “Da próxima vez vou… vou fazer o quê? Estava a pensar no quê mesmo? Ai, o que é que eu perdi do episódio? Porque é que a rapariga gritou?” Novamente mergulhada no calor das mantas e da lareira, e ainda com a chuva a bater nas janelas, Jonas desapareceu dos meus pensamentos, tal como a culpa que me afligia. Estava tão confortável…

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