terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Ho, Ho, Ho!




     
A meia-noite parece que nunca mais chega. Sentada na minha cadeira, à mesa de jantar, observo, com algum enfado, o relógio da sala. Os adultos não parecem nada aborrecidos com os minutos a passarem tão lentamente. Por minha parte, só consigo pensar nos presentes que vão aparecer dentro de momentos. Já escolhi a bota que vou pôr ao pé da lareira. Sinto formigueiros na barriga. Olho para a minha irmã que parece tão impaciente como eu. É difícil ser-se criança, e ter que aguentar tanto tempo à espera dos brinquedos que estão quase a descer pela chaminé. Estou tão ansiosa, que já nem ligo à mesa repleta de doces que tenho à minha frente.
É então que, subitamente, o meu pai distrai-se do prato já vazio e dirige os olhos para o relógio cujos ponteiros indicam que falta apenas 5 minutos para a meia-noite. Com um sorriso nos lábios, olha para mim e para a minha irmã e diz-nos:
- Meninas, é quase hora. O Pai Natal está quase a chegar. Têm que ir para o vosso quarto, porque ele só deixa os presentes se as crianças já estiverem a dormir. Não se esqueçam que têm que ter as luzes apagadas e devem ficar muito sossegadinhas e em silêncio. Se o Pai Natal ouve alguma coisa, vai-se logo embora pela chaminé.
Entre risinhos nervosos, vamos para o quarto, apagamos a luz e sentamo-nos na cama, uma ao lado da outra. Com a audição apuradíssima, nem me atrevi a respirar. Quero aperceber-me do momento exato em que o homem carinhoso e grande de fato vermelho cai com o seu rabo gordo nas cinzas da lareira.
PUM! CATRAPUM! Com os olhos esbugalhados, entre o negrume da escuridão, eu e a minha irmã olhamos uma para outra. Um estrondo vindo da sala. Poderia ser? PUM! Inspiramos num fôlego até os pulmões ficarem cheios de ar. Só podia ser. De repente, o som de uma voz grave, cheia e amistosa vem da sala e atravessa a porta de madeira do quarto:
- Ho Ho Ho! Venho deixar a minha mercadoria. É aqui que moram duas meninas muito bonitas? Espero que estejam a dormir…
- Sim, sim Pai Natal – responde a voz da minha mãe. – Elas já se foram deitar.
Tapo a minha própria boca para evitar o gritinho de alegria que me quer fugir por entre os lábios. Sinto pequenas lágrimas a formarem-se no canto dos olhos devido à excitação.
 Não me pergunto nada. Nem porque é que o Pai Natal tem uma voz tão parecida com a do meu pai, nem a razão de não poder entrar no escritório durante a semana antes do Natal, nem porque é que o Pai Natal exige que as crianças estejam a dormir quando gosta tanto delas ao ponto de lhes dar prendas sem pedir algo em troca. Num mundo de fantasia, criado pela imaginação de uma criança entusiasmada, não há lugar para perguntas. Aceita-se o incrível tão facilmente como comer chocolates de barriga vazia. E essa é a magia pura e cristalina que o Natal consegue trazer a uma menina de 6 anos. É único. Imperdível. É vital para qualquer infância.
Ouço passos na sala, o som de objetos a serem carregados e arrastados e as vozes de várias pessoas a conversarem umas com as outras. Mas quando é que a tortura da espera acaba?!
- Então adeus! – volta a exclamar o Pai Natal – Espero que as meninas gostem das surpresas que lhes deixei. Até para o ano!
Sinto um peso forte no coração. Todos os anos a mesma coisa. O Pai Natal entra, sai e nunca consigo conhecê-lo. É um difícil dilema. Gostava tanto de me levantar, abrir a porta e abraçá-lo! No entanto, sei que, se o fizer, ele vai-se embora zangado comigo. E corro o risco de não receber uma única prenda. Mas talvez… Talvez… Estou aqui a ter uma ideia. Não posso ir ter com ele, mas nada me impede de o tentar ver. Tenho que ser rápida! Sorrateiramente, pé ante pé, levanto-me e corro para a porta. Apoio os joelhos no chão e espreito pelo buraco da fechadura. Tenho o coração aos pulos, tal não é a expectativa daquilo que posso ver do outro lado. Tenho dificuldade em captar uma imagem nítida. Mas… acho que estou a ver um borrão vermelho. Do tamanho de uma pessoa. Com um pouco de persistência talvez consiga perceber se é ele. A necessidade de ver o Pai Natal é tão grande, que a imaginação coloca-o no meio da sala, à frente dos meus olhos. Não posso acreditar. É mesmo ele! E, de repente, desaparece. Foi-se embora pela chaminé, só pode. Mas para mim, não me importo que já não esteja ali. Eu vi-o, com toda a certeza. E nada me pode tirar esta imagem da memória. Mesmo 17 anos depois, ela continua viva na minha mente, como uma fotografia velha dependurada na parede, num quadro de cortiça.
É então que a porta do quarto é aberta. Vou a correr para a sala. Procuro a minha botinha. Lá está ela. Mal se consegue ver, tal não é a pilha de brinquedos embrulhados em papel colorido que tenho à minha frente. Eu e a minha irmã sentamo-nos no chão e abrimos os presentes um a um, na maior excitação, na maior felicidade, na maior aventura. Os adultos observam-nos, embevecidos, contentes por nos conseguirem proporcionar tanta alegria.
Acaba mais um Natal. Mas a sensação de tristeza não aparece porque sabemos que está prestes a começar um novo ano, que trará mais um Natal aquando o seu término.

Boas Festas!

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