quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

A porta que abria para o nada



No outro dia, sentada à mesa da cozinha do Hospital, olhei pela janela e aquilo que vi deixou-me de tal forma perplexa que não fui capaz de desviar o olhar. A imagem que espreitava pela janela não tinha nada de mais. No entanto, intrigou-me. Na casa ao lado do edifício onde estava, vi uma porta. Uma porta que dava acesso ao interior da casa. O que me espantou foi ver esta porta no primeiro andar da vivenda, sem haver uma única escada exterior que lhe desse acesso. Enruguei a testa e tentei lembrar-me de alguma explicação, tal não era o incómodo que aquele quebra-cabeças me provocava.
Talvez a explicação fosse tão simples como a existência de um escadote alto que eu não conseguisse ver. Mas também, porque é que alguém iria colocar ali uma porta, para ter que ir buscar uma escada sempre que quisesse entrar ou sair? Se calhar, a casa era maior e decidiram fazer obras para deitar a baixo parte dela. Aquela porta, antigamente, poderia ser a comunicação entre duas divisões. Torci o nariz em dúvida. Tanta obra e não a substituíam por uma janela?
Na falta de resposta, outras teorias, provavelmente menos plausíveis, invadiram-me a mente. Talvez a família sofresse de depressões crónicas e a porta fosse uma saída fácil para o suicídio. Imaginei-os a fazerem filinha para saltar. Pensando melhor, duvido que seja alto o suficiente para morrerem com a queda. Mergulhando de cabeça talvez. Mas, e se a pessoa quisesse ir de pés? Ou então, por castigo, mantinham alguém preso naquele andar. E a porta, nada mais era, que a tortura constante de mostrar ao prisioneiro que tinha ali uma saída pela qual não podia fugir. Surgiu-me na mente a imagem de uma mulher infeliz, com frio e fome, presa naquela casa a poucos metros de mim. Arrepiou-me a pele. Abanei a cabeça para afastar tal pensamento. Pareceu-me demasiado cruel para ser verdade.
Sem que o pudesse evitar, a porta destruiu completamente a lógica e abriu-se para o surreal. A casa podia ser habitada por gigantes e a vivenda não tinha dois andares. No fundo, a porta, neste mundo de gente grande, poderia ser uma janela. Ou então, existia uma escada, sim. Mas eu é que não a conseguia ver. Se calhar, quem entrasse na casa e saísse por aquela porta, perder-se-ia deste mundo, e entraria numa fantasia, num mundo paralelo, com rios de água rosa e doce, com borboletas do tamanho de cavalos e com palácios em vez de casas.  Sorri interiormente. O que eu não daria para explorar esse mundo. Senti vontade de me levantar, sair, entrar naquela casa e atravessar a porta, só para espreitar o outro lado. Só para encontrar o verdadeiro sentido da minha existência…
O som de uma camioneta a entrar pelo portão da adega acordou-me deste meu sonho acordado. Curiosa, levantei-me e vi, em ânsias, o que se desenrolava lá fora. A camioneta transportava uma cuba e colocou-a mesmo por baixo da porta. A tal porta. Com o coração a palpitar, vi-a a ser aberta. De dentro da casa, apareceu um homem com um cesto carregadinho de uvas e despejou-as para o interior da cuba. Realmente, uma cuba é difícil de encher. Aquela porta sem escadas, sem nada, era perfeita para uma adega.
Sentei-me novamente e suspirei. Estava um tanto desiludida, não consigo negá-lo.
Distraidamente, voltei a mirar a janela. Rapidamente, apercebi-me de uma pequena casinhota que estava ali, meio perdida no meio de umas árvores. Enruguei a testa, intrigada. Para que serviria e porque é que estava ali? Seria a casa de um cão vadio, adotado por uma pequena comunidade? Ou se calhar…

Sem comentários:

Enviar um comentário