quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Saudade




A caminho de casa, no carro, à saída de Lisboa, depois de uma jantarada com os meus amigos, passei pela rua onde costumava morar nos tempos em que estava a ter aulas na faculdade. O famoso triplex novinho em folha para onde fui morar com os meus amigos mais próximos e a minha irmã. Uma segunda casa, com as paredes, as divisões, o ar impregnados com, provavelmente, muitas das melhores memórias que vou guardar da minha juventude. E eu sei que nunca mais vou lá voltar. Nunca mais vou sair cansada da faculdade para tirar as chaves do bolso entrar naquela casa, jantar com aquela malta, rir até rebolar no chão e partilhar os melhores momentos do dia. Sempre que passo por ali, sinto um calor efervescente, desconfortável na barriga e uma pontada dolorosa na alma. Rapidamente percebo que aquilo que sinto é a mágoa da saudade. A noção de que aqueles momentos não se vão repetir, por muito que assim o deseje. Invade-me uma estranha tristeza. Uma mistura de felicidade ao recordar aquilo que de bom se passou com a melancolia de saber que não vou viver de novo aqueles dias, aqueles momentos, aquelas refeições, aquelas tardadas na varanda a conversar e a ver o vizinho barrigudo semi-nu do prédio da frente, aqueles disparates típicos de quem partilha uma intimidade tão forte que consegue não dizer coisa com coisa e, mesmo assim, toda a gente o entende. Por vezes, a saudade que sinto é tão forte que até tenho dificuldade em ver fotografias daquela altura ou relembrar algumas memórias. Num acesso de frustração, perguntei-me para que é que servia a saudade. Não acredito que seja apenas para trazer sofrimento. A saudade, na verdade, nada mais é que a vontade de repetir os melhores momentos da nossa vida. Talvez exista para que o ser humano procure fazer várias vezes as boas experiências ou estar sempre na companhia daqueles com quem se sente mais confortável. Vejo facilmente que a felicidade e a saudade andam de mãos dadas pela vida fora. Não gostamos da sensação dolorosa da mágoa da saudade. Mas a verdade é que a ausência de saudade significa que não vivemos momentos no nosso passado que criem o desejo da sua repetição no futuro. Ou seja, momentos de felicidade no presente vão trazer saudade no futuro e contra isso não conseguimos lutar. A não ser, claro, que decidamos não ser felizes, o que também não me parece ser uma boa escapatória. No final de contas, talvez o preço da felicidade seja o sofrimento aquando o seu término.
Ao debruçar-me sobre o assunto e sobre os meus sentimentos, reconheço que a saudade é um sentimento complexo, dotado de diferentes escalas e com a possibilidade de evolução ao longo do tempo. Considero que existem dois tipos de saudade: a boa e a má. A má saudade é aquela que nos destrói por dentro, que traz imensa dor e, normalmente, está relacionada com momentos que sabemos que nunca se voltarão a repetir. Como exemplo, lembro-me do sofrimento causado pela morte de um ente querido. A dor que a saudade cria pela morte de alguém muito próximo é tão forte que às vezes até nem conseguimos respirar. A boa saudade é aquela que podemos integrar no sentimento de nostalgia. É quando pensamos nos bons momentos passados nas férias, no quentinho da cama no pino do inverno, num amigo que não vemos há muito tempo, no bolo que não comemos desde o ano passado… Basicamente são recordações que vamos voltar a repetir ou que a falta da possibilidade de as viver de novo não causam uma dor que nos rasgue por dentro. Também tenho a noção que uma saudade má pode suavizar-se com o tempo e transformar-se numa saudade boa. Por exemplo, quando morre alguém, inicialmente a saudade pode ser esmagadora. Mas depois, o penso criado pelo tempo começa a cicatrizar a ferida aberta e, por vezes, passado muito tempo (por vezes até vários anos), o que sobressai é a boa sensação da presença dessa pessoa em vez do peso terrível do pior que aconteceu.
Para se ter saudade, é preciso ser feliz. E para ser feliz, acabamos sempre por sentir saudades. Não dá para fugir de uma coisa e apenas ter a outra. Por isso, acho que a verdadeira chave é não pensar muito sobre o assunto e criar constantemente momentos no presente pelos quais possamos sentir saudades no futuro.

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