quarta-feira, 26 de novembro de 2014

A dona que navegava num pranto


No outro dia, no Hospital, estava internada uma cadelinha que precisava de sofrer eutanásia o mais rápido possível. Era daqueles casos gritantes em que senti alívio quando o tormento da bichinha finalmente chegou ao fim. Felizmente, nesse dia, a dona falou com a médica, olhou para o seu pobre animal de estimação e entendeu que não havia mais nada que se pudesse fazer por ela, uma vez que já nem sequer havia medicação paliativa que lhe desse algum conforto ou bem-estar. Num pranto descomunal, a senhora saiu do internamento e encaminhou-se para a sala de espera onde teve que ser reconfortada por quase toda a equipa hospitalar, pois parecia não ser capaz de parar de chorar, de gritar e de gemer. Sem saber muito bem o que fazer nesta situação, fui adiantar algum trabalho no laboratório e esperei que a receção fica-se silenciosa de novo. Não consegui evitar julgar toda a situação como um grande exagero. Já vi algumas eutanásias, e nunca assisti a tamanho pranto. Tenho noção de que fugi porque me sentia demasiado desconfortável com toda aquela cena. Os olhos da senhora parecia que iam desaparecer, desfazer-se com tanta lágrima. Para além disso, gritava como se o mundo lhe tivesse tombado dolorosamente sobre os ombros. Tal como já disse, achava tudo aquilo um grande exagero e abanava a cabeça e suspirava para mim própria, numa quase impaciência. Também a mim já me morreram animais, o que me trouxe bastante dor e uma terrível saudade, e nunca na vida me atreveria a demonstrar tamanha vulnerabilidade num local público. No entanto, quando parei um bocadinho para pensar em vez de julgar, acabei por compreendê-la. A senhora já não era nova, era muito solitária e tinha tendência para a depressão. Aquela cadela era a sua companhia. E, naquele momento, apagou-se para sempre. O chão desapareceu-lhe de baixo dos pés com a morte da sua cadelinha. Para além de tudo isso, não temos que reagir todos da mesma maneira. Lá porque eu só choro sozinha em minha casa, não quer dizer que todos tenham que fazer o mesmo. Se calhar o espraiar das emoções no momento até é o mais saudável. Atrevi-me a julgar antes de pensar e critiquei precipitadamente. Mas a crítica que fiz foi, de certeza, aquilo que a maioria das pessoas pensa.
É bem visto perante a sociedade que haja alguma reclusão daquilo que sentimos. Não queremos mostrar as nossas tristezas e, na maioria das vezes, ficamos desconfortáveis quando alguém espelha no exterior as mágoas desconcertantes que lhe despedaçam a alma. Quem é que ditou aquilo que é conveniente ou não mostrar? Quem decidiu que, perante a morte de um animal, somente é permitido chorar em casa ou soltar, no máximo, entre 20 a 30 lágrimas por minuto e que mais do que isso é estranho e inapropriado? Quem somos nós para julgar a dor dos outros e a maneira como a expressam? Parece que mostrar as nossas emoções na sua plenitude é uma fraqueza gritante. Como uma gazela a coxear à frente de um leão faminto, temos que ter atenção para não mostrar as nossas feridas interiores. No fundo, no nosso mundo de primatas evoluídos, continua a haver presas e predadores. Emocionalmente, comportamo-nos como uma presa. E o predador… bem, o predador são todos os outros, a sociedade em si. Num mundo em que, supostamente, já não reina a lei do mais forte, continuo a encontrar regras que se espelham no nosso comportamento e que mantêm esse lema vivo de uma forma muito subtil. Ser capaz de esconder as emoções é considerado uma força. Forte é aquele que não cai, que não teme, que não chora. Claro que os pormenores variam de cultura para cultura, mas há esta regra básica que transcende todos os povos. Recuso-me a pensar que sentir é uma fraqueza. Mas mostrar ao público aquilo que nos perturba, pode levar os leões da nossa comunidade a aproximarem-se silenciosamente de nós a salivar.
Resumindo, neste novo mundo, em que pertencemos ao topo da cadeia alimentar, será que continuamos com a necessidade de criar presas e predadores entre nós? E se assim é, na nossa complexa maneira de ser e de viver, será a exposição dos sentimentos mais íntimos a quem não nos é próximo, a fraqueza que nos pode levar a ser devorados?

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