quinta-feira, 19 de julho de 2018

Xavier



            Querido Xavier,

         quando te vi pela primeira vez nada mais parecias que um espectro sombrio, sofrido e esganado. Estavas caquético, olhos fechados cheios de corrimento purulento, com o pêlo envolto em fezes desde a ponta das patas traseiras até à barriga, a respiração em sopros desgarrados e a pele seca, colada numa desidratação tremenda. Não queria tocar-te. Não por causa da sujidade, mas porque não tinha esperança que sobrevivesses para o dia seguinte. Não queria sofrer com a tua morte. Apesar de tudo, de todo o teu estado enfermo, continuavas a comer e a procurar carinho. Ficaste no nosso internamento, a soro. Quando te desparasitámos libertaste uma diarreia terrível, repleta de parasitas de todos os géneros. Limpar as tuas fezes foi um desafio. Era impressionante. Estavas a ser devorado de dentro para fora. Começámos tratamento com anti-inflamatório, antibiótico e tratamento tópico ocular.
        Foi com um certo espanto que observámos a tua recuperação persistente, a tua vontade de viver. De luvas calçadas, tirámos-te da tua caminha para te tratar e limpar. Libertaste parasitas durante os três primeiros dias. A cada dia que passava, tornava-se cada vez mais óbvio que não querias morrer. Agarravas-te à vida com as poucas forças que tinhas, determinado a experimentar a vida adulta. Sempre que te limpava as feridas e forçava a medicação, pensava no que já tinhas sofrido nestes teus tenros 3 meses de vida. Felizmente te encontraram. Felizmente te trouxeram até nós. Felizmente te estávamos a tratar. Várias vezes me perguntei o que teria acontecido aos teus irmãos. Serias tu o sobrevivente de uma ninhada desprovida de sorte? Que abusos terias já tu encontrado na rua?
       Ao fim de cinco dias aqui connosco, começou a tornar-se óbvio de que, afinal, não ías morrer. Ronronavas quando te punhamos a pomada nos olhos e te espetávamos agulhas no dorso. Tenho a certeza absoluta que sabias que estavas a ser tratado e agradecias-nos com o teu olhar meigo e festas pedidas. Nunca conheci gato de rua tão querido. Ontem demos-te banho. Ronronaste quando sentiste a água quente no teu corpo magro. Agora limpo, com as fezes normais e a ficar cada vez mais robusto a cada dia que passa, começo a ver em ti a beleza felina que te pertence. Cheiravas a minha bata, tentavas subir por mim acima, enroscavas-te entre as mantas no meu colo... Gostaria de ficar contigo, mas outros antes de ti apareceram a precisar da minha ajuda e ocuparam os lugares vagos da minha casa. O mesmo se passa com as minhas colegas. Quero o melhor para ti, Xavier. Preciso de encontrar um lar definitivo para ti, onde possas continuar a receber as medicações e o amor que mereces.
Tenho confiança que existe alguém que vai querer aceitar o teu carinho, pois sei que tens muito para dar. Quero ver o fim feliz desta história Xavier e recebo de braços abertos quem estiver disposto para to dar.
         Estas são as palavras que te escrevo, que gostava de te dizer, se me conseguisses compreender. Não tenho dúvidas que sabes que quero o melhor para ti.

Muitos beijinhos, querido amigo,

Rita


      Afastei os olhos do computador e mirei a receção sem qualquer expressão na face. Será que as minhas palavras ajudarão? Levantei-me, dirigi-me ao internamento e sorri ao ver Xavier enroscado na sua manta, tranquilamente a dormir. Quando seguir para a sua nova família, vou ter saudades dele. Mas será uma saudade sem sofrimento, pois sei que estará bem. Agora só falta encontrá-la. 

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Barco de Papel



       
       Na inquietude permanente que me assombra o inconsciente, perguntas a mais consomem-me o espírito. Cansada, procuro respostas. Cansada procuro caminhos. Cansada procuro a ténue paz que por vezes encontro. Navego calmamente num barco de papel, à deriva de um mar salgado com o horizonte preso num infinito longínquo. As incertezas pintam o branco que me carrega. Por vezes, quando existem demasiados desenhos, palavras e rabiscos, o peso da tinta ameaça afundar o meu coração frágil. A custo, vou procurar mais papel e reconstruo as bases. Assim me vou mantendo, à tona da água, a remar quando não há vento e a dormir tranquilamente quando as velas me guiam pela rota certa. O verdadeiro problema nasce quando cai uma tempestade. Por vezes começa com um trovão longínquo que agoira a queda da cascata das nuvens que está para vir. Nesses momentos tenho tempo para arranjar mecanismos para me proteger. No entanto, por vezes o agoiro pode ser imprevisível. As gotas grossas de água caem sobre mim, sobre o meu coração, sobre o papel que me transporta na minha navegação. De repente, a embarcação começa a derreter. Desesperada, grito por ajuda, apesar de saber que estou sozinha, neste eu demasiado profundo para ser alcançado por outro alguém. Atabalhoadamente seguro no mastro torto, fecho as velas desfeitas e tento tirar a água dos fundos com uma peneira. No pânico de cair ao mar, subo para o ponto mais alto da embarcação, olho em volta e sinto-me a desistir. Pronto, é agora. Fecho os olhos, penso nas minhas últimas palavras e preparo-me para soltar o meu último suspiro antes de perder a respiração no meio das ondas turbulentas, pretas, assustadoras. Os meus maiores medos. É o que elas representam, nesta tela escura. Será que é isso que verdadeiramente me assombra? O desaparecimento? O esquecimento? O vazio? O que de pior pode realmente acontecer? Será que é assim tão mau? Não ser lembrado… Aquele que não existe, poderá efetivamente sofrer? É neste ponto que consigo encontrar alguma tranquilidade no meio da tormenta. Aquele que não quer procurar, não sofre por não encontrar. Aquele que não se preocupa, não vê desfechos negativos. Aquele que não quer, não chora por não ter. Subitamente, um raio de luz consegue atravessar o céu de nuvens tenebrosas. Abro os olhos calmamente, qual criança a provar uma laranja doce pela primeira vez. A tormenta está a ficar mais calma. Empoleirada no mastro, sinto os pés a balouçar dentro de água. Está fria, mas não me importa. Cheira a sal, a praia, a uma terra por perto. Parece que, de repente, percebo que o que importa é navegar. Apenas isso. O destino da rota, só o tempo o dirá. Pego em mim, agarro numa folha de papel e construo um novo barco. Mas desta vez mais forte. E assim vou, tranquilamente de vento em popa, até à próxima tempestade.