Querido Xavier,
quando te vi pela
primeira vez nada mais parecias que um espectro sombrio, sofrido e
esganado. Estavas caquético, olhos fechados cheios de corrimento
purulento, com o pêlo envolto em fezes desde a ponta das patas
traseiras até à barriga, a respiração em sopros desgarrados e a
pele seca, colada numa desidratação tremenda. Não queria tocar-te.
Não por causa da sujidade, mas porque não tinha esperança que
sobrevivesses para o dia seguinte. Não queria sofrer com a tua
morte. Apesar de tudo, de todo o teu estado enfermo, continuavas a
comer e a procurar carinho. Ficaste no nosso internamento, a soro.
Quando te desparasitámos libertaste uma diarreia terrível, repleta
de parasitas de todos os géneros. Limpar as tuas fezes foi um
desafio. Era impressionante. Estavas a ser devorado de dentro para
fora. Começámos tratamento com anti-inflamatório, antibiótico e
tratamento tópico ocular.
Foi com um certo espanto
que observámos a tua recuperação persistente, a tua vontade de
viver. De luvas calçadas, tirámos-te da tua caminha para te tratar
e limpar. Libertaste parasitas durante os três primeiros dias. A
cada dia que passava, tornava-se cada vez mais óbvio que não
querias morrer. Agarravas-te à vida com as poucas forças que
tinhas, determinado a experimentar a vida adulta. Sempre que te
limpava as feridas e forçava a medicação, pensava no que já
tinhas sofrido nestes teus tenros 3 meses de vida. Felizmente te
encontraram. Felizmente te trouxeram até nós. Felizmente te
estávamos a tratar. Várias vezes me perguntei o que teria
acontecido aos teus irmãos. Serias tu o sobrevivente de uma ninhada
desprovida de sorte? Que abusos terias já tu encontrado na rua?
Ao fim de cinco dias
aqui connosco, começou a tornar-se óbvio de que, afinal, não ías
morrer. Ronronavas quando te punhamos a pomada nos olhos e te
espetávamos agulhas no dorso. Tenho a certeza absoluta que sabias
que estavas a ser tratado e agradecias-nos com o teu olhar meigo e
festas pedidas. Nunca conheci gato de rua tão querido. Ontem
demos-te banho. Ronronaste quando sentiste a água quente no teu
corpo magro. Agora limpo, com as fezes normais e a ficar cada vez
mais robusto a cada dia que passa, começo a ver em ti a beleza
felina que te pertence. Cheiravas a minha bata, tentavas subir por
mim acima, enroscavas-te entre as mantas no meu colo... Gostaria de
ficar contigo, mas outros antes de ti apareceram a precisar da minha
ajuda e ocuparam os lugares vagos da minha casa. O mesmo se passa com
as minhas colegas. Quero o melhor para ti, Xavier. Preciso de
encontrar um lar definitivo para ti, onde possas continuar a receber
as medicações e o amor que mereces.
Tenho confiança que
existe alguém que vai querer aceitar o teu carinho, pois sei que
tens muito para dar. Quero ver o fim feliz desta história Xavier e
recebo de braços abertos quem estiver disposto para to dar.
Estas são as palavras
que te escrevo, que gostava de te dizer, se me conseguisses
compreender. Não tenho dúvidas que sabes que quero o melhor para
ti.
Muitos beijinhos, querido
amigo,
Rita
Afastei os olhos do
computador e mirei a receção sem qualquer expressão na face. Será
que as minhas palavras ajudarão? Levantei-me, dirigi-me ao
internamento e sorri ao ver Xavier enroscado na sua manta,
tranquilamente a dormir. Quando seguir para a sua nova família, vou
ter saudades dele. Mas será uma saudade sem sofrimento, pois sei que
estará bem. Agora só falta encontrá-la.

